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Não podemos colocar as manchas de óleo para baixo da areia e fingir que o problema acabou


por Fernando Duarte
Não podemos colocar as manchas de óleo para baixo da areia e fingir que o problema acabou
Foto: Reprodução/ Facebook
Lágrimas de óleo. É isso que temos visto desde o começo de setembro no litoral do Nordeste e sem uma perspectiva clara do que deve acontecer com o maior desastre ambiental na região costeira do Brasil. O número de praias atingidas até agora não para de crescer e, por mais otimista que sejamos, é preciso mostrar preocupação com a possibilidade de o petróleo bruto chegar ao Parque Nacional de Abrolhos. Enquanto isso, o noticiário passou a ser dominado pelo vídeo do leão com as hienas e com o caso Mariele Franco. Não que ambos sejam mais ou menos importantes. Porém se sobressaíram em meio ao caos no litoral nordestino.

Não dá para medir totalmente os impactos ambientais. Dados preliminares de pesquisadores sugerem que ecossistemas essenciais para a cadeia alimentar, como os manguezais, tendem a sentir os efeitos nefastos do óleo por muitos anos. E isso se conseguirmos dimensionar exatamente as áreas atingidas. Sobram medo e desespero a cada nova imagem revelada, a cada nova informação sobre um estuário atingido, uma praia contaminada. Para muitos políticos, no entanto, pouco importa. O que vale é posar para foto fingindo preocupação, torcendo para que o óleo pare de jorrar – seja lá de onde quer que seja.

Há um amadorismo impressionante por parte do governo federal. O presidente Jair Bolsonaro e o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Sales, alimentaram teorias de conspiração sobre a origem do petróleo bruto. Para o primeiro, interessava culpar a Venezuela. Já o subordinado fez a ilação de que um barco do Greenpeace poderia ser responsável pelo derramamento criminoso. Nada disso solucionou o problema e só fez conversar com quem acredita em conspirações internacionais para dominar o mundo e acabar com as tradições. Faz parte do processo então fazer reflexões precisas sobre o que é possível fazer. Até o momento, o máximo foi uma política de redução de danos e aguardar pelo pior para tentar fazer o melhor.

É difícil tratar apenas como omissão. É um misto de despreocupação, descaso e falta de interesse. Mesmo outras autoridades públicas, que supostamente estariam concentrando esforços para lidar com as consequências das manchas de óleo, não conseguem propor algo efetivamente concreto para pôr fim às cenas de desolação, especialmente para quem nasceu à beira do mar e depende dele para sobreviver. O bate cabeças vai desde a proibição/ liberação da pesca até a forma como se tratam as informações já divulgadas sobre o assunto. Vide as declarações do procurador-chefe da Advocacia-Geral da União na Bahia, Reinaldo Couto Filho, que sugeriu que a Marinha e a Petrobras sabiam das manchas de óleo antes do petróleo chegar nas praias brasileiras.

Sim, precisamos voltar a falar sobre esse desastre ambiental. Precisamos acompanhar o avanço ou o retrocesso das manchas nas praias para, de alguma forma, reagirmos melhor à certa inércia de muitos governantes. Afinal, se o petróleo não chegar em Copacabana, dificilmente veremos a importância devida ao grave problema que estamos lidando. Por isso, a cada dia temos pouco a fazer. A não ser chorar lágrimas de óleo.

Este texto integra o comentário desta quinta-feira (31) para a RBN Digital, veiculado às 7h e às 12h30, e para as rádios Irecê Líder FM, Clube FM, RB FM e Valença FM.

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