Tv espinha de peixe News

Suspensão de aulas por colheita visa diminuir evasão, mas pode respaldar trabalho infantil

por Lucas Arraz
Suspensão de aulas por colheita visa diminuir evasão, mas pode respaldar trabalho infantil
Foto: Reprodução / Agência Brasil
Na zona rural baiana, em que ainda prevalece a agricultura de subsistência, a mão de obra de crianças e adolescentes é auxílio para colher o necessário para sobreviver. Para abarcar essa possibilidade, o governador Rui Costa sugeriu, nesta segunda-feira (2), que algumas escolas estaduais suspendam suas atividades durante época de colheita. Para o secretário de Desenvolvimento Rural da Bahia, Josias Gomes (PT), essa é uma forma de a unidade escolar da zona rural se adaptar à realidade. Mas para uma especialista em Pedagogia ouvida pelo Bahia Notícias, essa atitude pode ser vista como um respaldo ao uso de mão de obra infantil.

A ideia do governador de adequar o calendário estudantil da zona rural ao trabalho dos estudantes em colheitas familiares serviria para evitar a evasão escolar de quem precisa ajudar os pais no campo e, assim, melhorar a posição da Bahia no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) (veja mais aqui). 

Para a pedagoga Lorena Coutinho, a estratégia de um calendário que favoreça a dupla jornada pode ter efeito contrário. A professora de Pedagogia na Faculdade de Tecnologia e Ciências (FTC) pontuou que, historicamente, crianças e adolescentes a partir de 11 anos que evadem da escola para ajudar a família no campo dificilmente retornam para sala de aula. “As crianças evadem com a justificativa de que irão ajudar a sua família, mas isso se reflete em exploração e uso do trabalho infantil de um estudante que não consegue mais terminar sua formação. Temos números da educação na Bahia que apontam para a melhora no acesso à educação infantil, mas ainda há um problema com a formação desse indivíduo”, disse Coutinho.

O último estudo sobre educação do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), publicado em dezembro de 2018, apontou que a Bahia tem o maior número de alunos que abandonam a escola antes de concluir o ensino médio entre todos os estados do Nordeste. O levantamento teve como base a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) e apontou que, a cada 100 estudantes baianos de até 19 anos, apenas 43 concluíram o ensino médio na idade correta. O quadro fica ainda mais periclitante entre a população negra e rural, pontuou o estudo. 

A professora de Pedagogia argumentou que a escola deve se fazer presente justamente durante o período de colheita na zona rural e que o Estado deve investir em educação em tempo integral para a época. "A escola precisa ter a maior quantidade de atividades possíveis em turno oposto para acolher o estudante enquanto a sua família está focada na colheita", argumentou Coutinho. 

A pedagoga lembrou que a formação é um direito básico garantido pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e a Constituição Federal. "Sou totalmente contra a ideia de suspender as aulas. Retirar crianças para que elas deixem de estudar é negar um direito. Enquanto sociedade precisamos pensar em como dar condições para a criança mudar sua situação social e a situação social da sua família por meio da educação”, concluiu. 

Para o secretário de Desenvolvimento Rural, Josias Gomes, contudo, a escola precisa se adaptar à realidade do agricultor familiar baiano, que tem demanda de subsistência e obedece “uma cultura incorporada”. O petista defendeu a Pedagogia da Alternância, que tenta equilibrar a vida no campo com os estudos. “Temos escolas para famílias agricultoras que desenvolvem essa pedagogia. A pessoa não passa o tempo todo na escola, e isso se mostra uma forma de manter o aluno, que retorna para a sua comunidade, na aula. É uma experiência que tem se mostrado exitosa”, falou. 

Gomes rejeitou que Rui tenha feito um estímulo ao trabalho infantil. “Estamos praticando a fixação do jovem no campo. Hoje temos vários jovens dirigindo cooperativas que exportam para a China e para a rede mercadista de Salvador. Estamos evitando uma evasão para o ambiente urbano”, avaliou. 

O secretário ainda defendeu que o governo petista tem feito avanços para evitar o trabalho infantil e o abandono da escola. “É preciso que os saberes acadêmicos compreendam o ambiente das pessoas que vivem naquele ambiente. Os governos do PT foram os que mais estimularam o ensino de jovens e crianças nos últimos anos. Tendo em conta o Bolsa Família, que obriga uma frequência regular nas escolas”, rebateu Josias Gomes. 

Nenhum comentário