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'Dose de Moro' pode deixar de ser cura para a corrupção e se transformar em doença


por Fernando Duarte
'Dose de Moro' pode deixar de ser cura para a corrupção e se transformar em doença
Foto: Alan Santos/PR
As conversas divulgadas entre o ex-juiz Sérgio Moro e o procurador Deltan Dallagnol podem ter consequências jurídicas, como diversos especialistas se arvoraram em dizer. No entanto, as implicações políticas do caso são tão delicadas quanto. Não por Dallagnol, que continuará atuando como procurador da República, independente do conteúdo divulgado. Já o ministro Sérgio Moro pode deixar de ser uma vacina “anticorrupção”, como idealiza o presidente Jair Bolsonaro, para se tornar um “vírus” que pode contaminar todo o discurso construído ao longo dos últimos anos.

Moro é considerado o grande símbolo do combate à corrupção no Brasil. Tanto que, em diversas manifestações populares, o ex-juiz aparece como um herói sem capa que foi responsável por eliminar diversas ervas daninhas do processo político brasileiro. A condenação e a prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva foram a cereja do bolo dessa “luta”, mesmo que eivada de críticas pelos aliados do petista. Se antes a teoria de conspiração de que Lula foi alvo político da Justiça encontrava amparo apenas nas proximidades da esquerda, as informações divulgadas pelo site The Intercept fazem reverberar o conceito fora desse nicho.

Não acredito que haja impacto direto na administração de Bolsonaro. O presidente, ainda que tenha supostamente sido beneficiário da proximidade entre Moro e a Força-Tarefa da Operação Lava Jato em Curitiba, não possui vinculação com as conversas. Logicamente, vão sobrar tentativas de criar pontos para conectar a eleição de Bolsonaro aos atos de Moro. Muitos fazem sentido, porém a maioria é elucubração para tentar esconder o contexto eleitoral de 2018, que poderia terminar com a vitória do candidato do PSL ainda que Lula estivesse na disputa – se é para fazer projeções, todas são possíveis e não dá para negá-las.

O que acontece agora é que a imagem imaculada de Moro, que ainda persiste em boa parte do imaginário popular, tende a ficar mais turva. O ex-juiz sempre oscilou entre herói e vilão para boa parte dos brasileiros. Em um ambiente dicotômico, eram raros aqueles que ficavam em cima do muro ao falar sobre ele. As conversas divulgadas criam uma dúvida que até então era fácil de ser respondida, a depender de quem o interlocutor conversava. Mas e agora, que a idoneidade foi colocada à prova?

As reações políticas dele serão decisivas para saber se ele permanece ou não no posto de ministro da Justiça e Segurança Pública. O pacote de medidas anticrime, por exemplo, deve encontrar uma resistência maior no Congresso Nacional, depois que Moro saiu arranhado desse escândalo deflagrado pelas conversas privadas. E, mesmo que haja a acusação de politização das decisões dele, o ex-juiz não tem expertise para lidar com uma crise política. Por isso, a depender da “dose de Moro”, ao invés de uma cura, o governo pode ter que lidar com uma doença a contaminar outras áreas...

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