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terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Especialistas apontam que intervenção no Rio é medida 'ineficaz' de repressão


por Ana Cely Lopes
Especialistas apontam que intervenção no Rio é medida 'ineficaz' de repressão
Foto: Tomaz Silva /Agência Brasil
Na sexta-feira (16) o governo de Michel Temer (PMDB) assinou o decreto que determina uma intervenção federal na área de segurança no Estado do Rio de Janeiro (RJ). A medida que coloca o general do Exército Walter Braga Netto como responsável pela pauta no território fluminense está sendo votada ainda nesta segunda (19) e, se aprovada, será encaminhada ao Senado. Considerada pelo governo Temer uma tentativa de "conter grave comprometimento da ordem pública" após a crise de insegurança motivada pelos episódios de violência durante o Carnaval, especialistas acreditam desde já que a medida é ineficaz. "Nós últimos 20 anos houveram oito intervenções federais similares, nenhuma exatamente igual, mas em apenas em um dos casos foi registrada diminuição de violência. Diante desses dados olhamos para o futuro e vemos que é muito provável que essa intervenção não resolva a questão", explicou o professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA) especialista em história política, Carlos Zacarias. Mas o problema não para por aí. A intervenção terá ampla atuação das Forças Armadas, órgão que, segundo o professor de Ciências Políticas da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Jorge Almeida, se mostrou inadequado para combater o narcotráfico em diversas ocasiões. "A ação das Forças Armadas para o narcotráfico não funcionou nenhuma vez. Estudos comprovam que são instrumentos inadequados para isso - o enfrentamento de questão deveria começar a partir da discussão da legalização. E, se fosse para repreender, não deveria ser com o uso das Forças Armadas", disse. Muitos questionam o motivo pelo qual Temer resolveu realizar a intervenção no Rio agora e Almeida tem algumas pistas. "Não foi só por conta da violência durante o Carnaval - a criminalidade já é uma velha conhecida do Rio e durante a folia não houve fatos que justificassem isso. Acho que um dos motivos foi o desgaste que teve no Rio de Janeiro em relação a Temer e as sucessivas demonstrações de oposição não só nos desfiles das Escolas de Samba mas também nas manifestações nas ruas", apontou. Já Zacarias acredita que com aprovação de emendas e reformas impopulares, apostar na intervenção, que é defendida por 83% dos cariocas segundo pesquisa do Planalto, é uma forma de melhorar a visão do governo Temer. "A intervenção pode ser interpretada como uma maneira do presidente demonstrar força e melhorar a imagem política, nesse sentido ele poderia estar manipulando as Forças Armadas para se fortalecer, especialmente depois do Carnaval", disse. "Diante do iminente fracasso da votação da reforma da Previdência, o governo precisava criar um fato político para desviar a atenção para mais uma medida impopular", completou Zacarias. Já Almeida demonstrou preocupação com o fato de que a ação pode ser entendida, em última análise, como uma forma de legitimar as Forças Armadas nas políticas nacionais, fato que já ocorreu inclusive em governos de esquerda. "Os governos do PT também já fizeram isso e ajudaram a legitimar as forças em ações político-sociais, em repressões ao crime em bairros populares durante a Copa do Mundo. Nesse aspecto, o PT criou esse precedente, só que durante um contexto político muito mais tranquilo", apontou Almeida. Ele acredita que como o Rio de Janeiro não é um dos cinco estados com maior índice de criminalidade do país, a ação se deu por conta de existir na região um "caos político". "Há uma perda de controle de governo em geral, é razoável imaginar que a intervenção foi um acordo entre Temer e Luiz Fernando Pezão (PMDB). Ele [Pezão] está queimado e não tem mais nada a perder no momento", analisou. Professora da Universidade do Estado da Bahia (Uneb), a cientista política Núbia Ramos sugere que a situação pode ser ainda mais profunda quando se analisa que durante a intervenção a segregação racial e social pode ficar ainda mais evidente. "Vai ser mais uma forma de segregar negros e pobres que em sua maioria vivem no morro. Nosso governo é elitista e se expressa em torno de suas ações: você acha quem vai poder sair à noite para ir a um boteco e voltar tarde para casa? É a pessoa que mora no morro ou em Copacabana?", exemplificou.